O crescimento da economia e o aumento da renda do trabalhador têm estimulado micro e pequenas empresas a acessarem o
crédito bancário pela primeira vez para aproveitar o bom momento do país. De olho nesse filão,
o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou que vai dobrar o número de pequenas firmas
atendidas no segundo semestre deste ano. É que a emissão do principal produto para o segmento, o Cartão
BNDES, vai passar dos atuais três mil para seis mil por mês, com a entrada de três novos bancos autorizados.
Já o Banco do Brasil (BB) ainda lança a linha de empréstimo voltada exclusivamente para os Arranjos Produtivos
Locais (APLs), os chamados pólos de produção.
No BNDES, entre janeiro e abril deste ano, foram mais de dez mil pequenos estreantes, cujos desembolsos aumentaram 43%, totalizando
R$2,105 bilhões. No BB, outros 61 mil novos clientes interessados em linhas de capital de giro e de investimento chegaram
ao banco. Os dados do BB revelam alta de 9,2% nos empréstimos nos primeiros quatro meses, chegando a R$24,3 bilhões.
BNDES estuda mais facilidades para pequenos
É nesse ritmo que, no BNDES, as micro e pequenas empresas vão ultrapassar as companhias médias em volume
de financiamento pela primeira vez desde 2005 - quando a alta dos juros e a crise da agricultura prejudicaram os negócios
menores. Porém, é preciso fazer avanços, dizem especialistas. Do total de consultas ao banco feitas este
ano, cerca de 40% não conseguiram ter acesso a empréstimos com juros a 1,06% ao mês.
Rodrigo Bacellar, chefe do departamento que cuida das pequenas empresas no BNDES, explica que, com a maior demanda, foi preciso
ampliar o número de bancos autorizados a oferecer o cartão, já que hoje apenas BB, Caixa Econômica
Federal e Bradesco têm o produto. Segundo fontes, Santander, Itaú e HSBC estariam entre os mais cotados para
a parceria.
- Com isso, o limite aos pequenos será aumentado em R$750 mil, se somados os limites de todas as instituições
financeiras. Com o crescimento da economia, as micro e pequenas têm demandado mais investimentos. O principal pedido
é a modernização, com a compra de equipamentos e computadores - ressalta Bacellar, lembrando que o desembolso
com o cartão chegou a R$131,3 milhões de janeiro a março, alta de 40% em relação ao mesmo
período de 2007.
Há ainda outras iniciativas a caminho. Este ano, o BNDES vai criar uma linha de crédito para a obtenção
de certificação. Para Claudio Bernardo Moraes, superintendente da área de operações indiretas,
a idéia é ajudar as pequenas a obterem o certificado, necessário para a exportação, pois
ainda é um processo caro. Outra proposta, em análise, é a criação de um leilão de
reserva, permitindo que o empresário tenha acesso a máquinas e equipamentos mais caros. Funcionará assim:
a microempresa faz o pedido de compra, e os bancos oferecem diferentes taxas de juros, permitindo, assim, maior competição.
Moraes lembra que o banco vai aperfeiçoar o filtro que mede o risco das operações nos fundos de competição:
- As micro e pequenas empresas, do comércio e de produção de itens industriais, estão acessando
mais o Banco e, se continuar assim, vão ultrapassar as médias este ano. Estamos focando nos pequenos.
O BNDES considera microempresas as com faturamento anual até R$1,2 milhão; pequenas, entre R$1,2 milhão e R$10,5 milhões; e médias, de R$10,5 milhões a R$60 milhões.
Para a FGV, é preciso ainda mais incentivo
Entre os bancos, as micro e pequenas também acessam o crédito com força. O Santander - que vem lançando
novos produtos, como o cartão Business isento de tarifas - espera passar das atuais 150 mil pequenas firmas para 300
mil em dois anos. O BB ainda vai criar linhas voltadas para micro e pequenas empresas que exportam.
- Vamos contratar consultores para auxiliar os pequenos que querem vender no exterior - diz Kedson Macedo, gerente da área
do BB.
Apesar das melhorias, José Cesar Castanhar, da Fundação Getulio Vargas (FGV), acredita que o processo
de análise ainda é muito tradicional, com muitas exigências. Francisco Barone, da Escola Brasileira de
Administração Pública e de Empresas (Ebape), ressalta que o foco ainda é para as médias
empresas, onde o risco de calote é menor.
- A maioria das empresas no país é de micro e pequenas. Incentivo é necessário.
FONTE: O GLOBO (RJ) • ECONOMIA • 25/5/2008 • TEMAS DA INDÚSTRIA
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